Um relógio brasileiro no pulso dos astronautas da Nasa

Enquanto a cápsula Orion cortava o espaço rumo à Lua, um pequeno dispositivo brasileiro pulsava no pulso dos astronautas da Nasa, monitorando não apenas seus movimentos, mas também o delicado equilíbrio entre sono e vigília no vácuo do cosmos. Desenvolvido pela startup technology paulista Condor Instruments com apoio do programa Pipe da Fapesp, o actígrafo — um device no formato de relógio — foi finalmente confirmado a bordo da Artemis 2 horas antes do lançamento. Para o engenheiro Rodrigo Trevisan Okamoto, o e-mail da Nasa foi a prova de que anos de pesquisa haviam entrado em órbita: "Só quando a nave decolou soubemos que o equipment estava de fato a bordo", diz ele, cuja equipe já vinha testando o aparelho com a agência há dois anos. O momento marcou não só um salto para a innovation nacional, mas também a consolidação de um relógio biológico como prioridade em missões espaciais.

No espaço, onde o céu pode permanecer claro ou escuro por períodos contínuos, o ciclo natural de luz e sombra desaparece. A Terra gira, mas os astronautas testemunham 16 nasceres e pores do sol por dia na ISS — uma rhythm caótico que desregula o sono e afeta o desempenho. Aqui entra o papel crucial do actígrafo: com sensores de luz, temperatura e aceleração, ele mapeia com precisão os padrões de activity e repouso. Dez sensores detectam a luz em diferentes comprimentos de onda, incluindo a luz melanópica — um espectro azul-ciano que inibe a melatonina e engana o cérebro, fazendo-o acreditar que é dia. "Os celulares emitem luz nesse comprimento de onda", lembra o cronobiologista Mario Pedrazzoli Neto, cujos estudos embasaram a tecnologia. "Por isso, usá-los à noite altera radicalmente o sleep ".

Além de monitorar o movimento e a luz, o dispositivo registra a temperatura corporal — um dado crucial, já que ela cai entre 1 °C e 2 °C durante o sono, parte essencial do ciclo circadiano. O aparelho também possui um botão de eventos, acionado pelos astronautas em momentos históricos, como quando Orion atingiu 406.777 km da Terra — o ponto mais distante já alcançado por humanos. O comandante Reid Wiseman revelou que, nos últimos dois anos, o uso do dispositivo ajudou a recuperar o focus durante distrações. Os dados coletados serão cruzados com testes de coordenação motora e questionários antes e depois da missão, com o objetivo de aprimorar o design de futuras naves. "O que aprendermos nos ajudará a entender como os astronautas podem survive e prosperar mais distantes da Terra", afirma a Nasa.

A jornada do actígrafo começou em um laboratório do Centro de Estudos do Sono da Unifesp, onde Pedrazzoli precisava escalar a produção para seus estudos sobre o horário de verão. Com a ajuda de Arturo Forner-Cordero, conheceu Okamoto e Luis Filipe Rossi, então mestrandos da Poli-USP, que transformaram o protótipo em um produto comercial com apoio do Pipe-Fapesp. Hoje, a startup exporta 80% de sua produção — entre 200 e 300 devices por mês — para mais de 40 países, atendendo universidades e centros de pesquisa. As aplicações vão da epidemia de miopia na Ásia à recuperação de bebês prematuros em UTIs neonatais. Para Rodolfo Azevedo, da Fapesp, o caso é um exemplo de como o funding precoce pode gerar soberania tecnológica. "Entre os primeiros protótipos e o anúncio de que a tecnologia brasileira está no espaço profundo, percorremos anos de pesquisa. A inovação exige patience ", diz ele. O próximo desafio? Manter a parceria com a Nasa até o pouso no polo sul da Lua, em 2028.

Reações 7

  • B
    BioClock

    Fascinante ver ciência brasileira no espaço. O fato de medir luz melanópica é um diferencial real — poucos dispositivos fazem isso.

  • L
    Luna2028

    E o custo desse dispositivo? Será que universidades menores no Brasil conseguem acessar essa technology ?

  • Z
    ZzzMaster

    Se até astronauta precisa de ajuda para dormir, imagina nós, com celular no escuro.

  • T
    TecnoCético

    Parceria com a Nasa é ótimo, mas será que a Fapesp vai continuar financiando inovação com esse nível de impact ?

  • P
    PoliAlum

    Orgulho de ver ex-alunos da Poli-USP nesse patamar. Que isso inspire mais startups nacionais.

  • S
    SonoEMais

    O botão de eventos é genial — uma forma de marcar momentos com dados objetivos, não só memórias.

  • C
    CronoNeto

    Pedrazzoli tem razão: a cronobiologia nasceu com a Nasa. Agora o Brasil está na jogada. Sono nunca foi tão estratégico.

O texto é baseado em fatos e reelaborado com fins de aprendizagem de inglês; as reações dos leitores são exemplos de diferentes perspectivas.

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