Três professoras da USP e o ato de ocupar o lugar que lhes pertence
Num palácio onde o eco de discursos históricos costuma silenciar vozes minorizadas, uma cena inédita se desenhou sob os lustres do Palácio 9 de Julho: cientistas, ativistas e artistas negras e brancas ocuparam o centro do debate público, não como convidadas, mas como protagonistas. A Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) transformou-se, por uma tarde, num palco de resistência simbólica ao homenagear mulheres que ampliam fronteiras — tanto no laboratório quanto na sociedade. O evento Mulheres que Movem a História não foi apenas um tributo, mas um ato político de visibilização: celebrar conquistas para exigir mais. E no centro dessa celebração, três professoras da USP carregavam não só prêmios, mas legados de quebra de paradigmas.
A vice-reitora engineering Légi Bariani Bernucci, primeira mulher à frente da Escola Politécnica em 120 anos, falou de barreiras invisíveis — aquelas que não estão escritas em regulamentos, mas ecoam em olhares e silêncios. Sua trajetória, disse, não é de exceção, mas de luta compartilhada. Já Mayana Zatz, referência global em genética, comparou a ciência a um eterno quebra-cabeça: cada descoberta abre novas perguntas, e é nesse movimento contínuo que reside a paixão. Ambas usaram a fala não para se exaltar, mas para convocar: que mais meninas ousem entrar em salas antes dominadas por homens, e que a produção de conhecimento não seja monopólio de um gênero.
Ana Estela Haddad, cuja atuação entrelaça odontologia e políticas públicas, destacou o poder coletivo dessa visibilidade. Para ela, o prêmio não é um marco individual, mas um espelho do esforço de tantas que trabalham na linha de frente da transformação social. Hoje secretária nacional de digital , ela enxerga na ciência aplicada uma ferramenta de justiça. Enquanto isso, o ambiente pulsava com a sonoridade afro-brasileira do bloco Ilu Obá de Min e a voz de Assucena — lembretes sonoros de que a ciência não vive isolada, mas em diálogo com a culture , a arte e as raízes que sustentam a identidade nacional.
O evento, promovido pela deputada Beth Sahão, transcendia o simbólico ao reunir vozes de áreas distintas: do ativismo ao empreendedorismo, com Luiza Trajano e Débora Martins da Silva representando o setor privado. Mas a mensagem era comum: avançar exige presença, coragem e o direito de pertencer. Em tempos de retrocessos, cada discurso ecoava como um convite — para fazer parte do grupo que faz acontecer, como disse Zatz, e não apenas observar. E nesse movimento, a ciência deixa de ser um campo elitizado e se torna um território de esperança coletiva, tecido por mãos femininas que redefinem o futuro.
Inspirador ver cientistas sendo tratadas como lideranças reais, não só como 'exceções'. Isso aqui é representatividade com impacto.
Será que essas homenagens viram políticas concretas depois? Simbologia é bonita, mas faltam verbas pra pesquisa.
Mayana Zatz falou tudo: 'fazer acontecer'. Que mais meninas escutem isso na escola. role model Modelo a seguir de verdade.
O bloco Ilu Obá de Min no Palácio da Alesp? Isso sim é transformação cultural. Ciência e arte juntas, como deveria ser.
Parabéns pela cobertura. Mostra que ciência também é política, ainda que alguns queiram separar.
Liedi Bernucci na Poli é um marco. Quantas ainda vão precisar enfrentar resistência antes de isso ser normal?
Emoção ver Ana Estela Haddad falando de coletividade. Nada é feito sozinho, e o reconhecimento coletivo importa.