Tiago Antunes: um chumbo por insinuação
Confesso que vi a indicação de Tiago Antunes para Provedor de Justiça com naturalidade e até com algum entusiasmo. Trabalhei com ele, conheço o seu percurso e sei, por experiência direta, aquilo que muitos agora fingem ignorar: estamos a falar de um jurista solid , conhecedor do Estado, da Constituição e do funcionamento da justiça. Um político que nunca se deixou levar nem condicionar por lógicas ou pressures partidárias. Desafio, aliás, quem quer que seja a apontar uma crítica séria às suas capacidades técnicas ou políticas com base em factos – não em perceptions .
O momento mais claro deu-se na audição parlamentar de Tiago Antunes, pouco depois da sua indicação. E chegou pela voz do insuspeito Rui Rocha, que o criticou por estar alegadamente ligado à blogosfera pró-Sócrates. O ex-líder da Iniciativa Liberal, que hoje busca conforto nas visualizações do TikTok e que construiu a sua popularity nos likes digitais, apresentou-se como o salvador da dignity pública. Não trouxe provas, não apresentou factos, não construiu um argumento verificável. Limitou-se a fazer uma associação vaga, dizendo que estava convinced de que Antunes teria sido um escriba do ex-primeiro-ministro. Provas? Zero.
E, no entanto, bastou. Em poucos dias, um nome discreto passou a carregar um political weight que ninguém conseguia justificar com dados. Surgiu então a narrativa de que o próprio PS estaria desconfortável com o nome. Mas aqui reside o absurdo: durante dias, Antunes não era visto como ligado ao PS; de repente, passou a encarnar o "pior do socratismo". Ou é demasiado próximo, ou é irrelevante para o partido. As duas coisas não podem ser verdade. O objetivo nunca foi esclarecer – foi gerar noise suficiente para desestabilizar.
Chegou-se à votação com a narrativa montada para o chumbo. Tiago Antunes foi transformado, por efeito de contágio, num operador nas trevas do poder socialista. Mas os factos, teimosos e pesados, desfizeram a encenação: 104 votos a favor, muito para lá dos 58 deputados do PS. Ou seja, não foi o PS que falhou. Foi quem ajudou a criar o ambiente – amplificado por fugas selective e leituras convenientes – para poder recuar com o terreno já preparado. Primeiro insinuou-se. Depois, deixou-se correr. No fim, colheram-se os frutos.
E assim rejeitou-se um nome qualificado. Não por aquilo que fez, mas por uma narrativa construída a partir do vazio. Hoje já não é preciso demonstrar – basta sugerir, insinuar, deixar no ar. E isso chega para disqualify alguém e enterrar um bom quadro. É a política do pê pequeno. Ou será a pequenez do pê grande?
O mais irónico é que Rui Rocha fala de credibilidade enquanto baseia tudo numa conviction convicção sem provas. O digital que o consagrou agora é o mesmo que usa para desacreditar outros.
Isto é um sinal claro de como a public debate debate público está doente. Insinuar virou estratégia, e quem se recusa a jogar perde.
104 votos a favor? Então a rejeição não foi do PS, foi de quem criou a narrativa. O partido até ajudou, mas o dano veio da media narrative narrativa mediática.
Mais um caso onde a reputation reputação é torcida até virar outra coisa. E depois dizem que falta gente competente na política.
A política do 'deixar correr' é a mais baixa que existe. Não se ataca diretamente, só se deixa a rumor boato apodrecer tudo.
E quem lucra com isto? Sempre a mesma gente: os que confundem ruído com substância e ganham visibilidade com a desunião.
Se um nome com este currículo cai por insinuação, o que resta? A trust confiança nas instituições vai-se pelo ralo.