Os boards mais preparados já tratam a IA como tratam o risco financeiro
Os boards mais avançados já tratam a inteligência artificial com a mesma seriedade que o risco financeiro ou a cibersegurança, segundo Joana Pinto, sócia da área de Technology Transactions na Antas da Cunha Ecija. Para ela, a governance deixou de ser um mero documento formal e transformou-se num modelo operativo essencial — e quem não fizer essa transição arrisca ter políticas e práticas desconexas. Com mais de 25 anos de experiência no setor tecnológico, incluindo passagens pela Accenture e Capgemini, Joana traz uma visão prática e estratégica sobre como as organizações devem integrar a IA de forma segura e eficaz.
Um dos grandes desafios, destaca ela, é reconhecer que a IA não é apenas um tema técnico, mas organizational . Muitas empresas adotam ferramentas de IA sem repensar seus processos internos ou estruturas de decisão, o que cria uma lacuna crítica entre inovação e controle. A qualidade dos dados, a accountability e a capacidade de gerar evidências auditáveis são elementos frequentemente negligenciados. 'A inteligência de um sistema nunca será superior à qualidade da informação que o alimenta', alerta, lembrando que dados enviesados ou desatualizados geram riscos legais e reputacionais reais.
Outro ponto central é a necessidade de early no envolvimento jurídico. O advogado que entra apenas na fase final de uma transação tecnológica tende a limitar-se a mitigar riscos, enquanto o valor real surge quando participa desde o início — ajudando a definir escopos, expectativas e critérios de aceitação. Na prática, isso significa desenhar cláusulas ajustadas à realidade do uso da IA, como SLAs dinâmicos e mecanismos de supervisão contínua, especialmente em áreas sensíveis como RH, saúde ou crédito, onde decisões automatizadas afetam direitos fundamentais.
No setor público, o desafio é ainda maior: a modernização digital depende diretamente da trust dos cidadãos. Sem transparência, mecanismos de correção e supervisão clara, a adesão aos serviços digitais cai. Joana defende que o Estado precisa investir em literacia digital nas funções públicas, contratação adaptada ao digital e supervisão técnica robusta. 'Tudo converge na confiança', diz, lembrando que uma governança sólida é o alicerce para a inovação responsável.
Por fim, ela aponta que a regulação europeia — especialmente o AI Act — está a mudar o jogo. O risco tecnológico deixou de ser responsabilidade exclusiva das equipas de IT ou jurídicas e subiu à agenda dos conselhos. A compliance não pode ser apenas papel: precisa estar no desenho técnico dos sistemas. Se aplicada com proporcionalidade, a regulação pode ser uma vantagem competitiva; se for burocrática, torna-se um travão. A chave está em equilibrar inovação com supervisão, e isso começa com lideranças que entendem que a IA já não é um piloto — é parte do modelo de negócio.
A parte da due diligence com fornecedores de IA é crucial. Muitas empresas assinam contratos sem perceber como os dados são usados nos modelos.
Concordo que a accountability é o grande nó. Se um sistema de IA toma uma decisão errada, quem responde? O programador? O gestor? O fornecedor?
Já estamos atrasados em digital literacy literacia digital nas instituições públicas. Sem isso, qualquer modernização é frágil.
O que mais me preocupa é a ilusão de segurança. Ter uma política escrita não significa que há governance governança de verdade.
Eles falam em proactive abordagem proativa, mas a maioria das empresas só age depois do incidente. O custo disso é altíssimo.
O exemplo do RH com IA é real. Já vi casos de triagem automatizada com viés claro. E ninguém sabia quem tinha aprovado o sistema.
A Europa regula bem, mas será que isso vai slow down desacelerar as startups locais em vez de proteger os cidadãos?
A ideia de tratar IA como risco financeiro é genial. Isso muda completamente a perception perceção no boardroom.