O voo da impunidade: como a elite política desafia a fiscalização
Eles voltaram da island dos cassinos em um jatinho de empresário ligado ao chamado 'jogo do tigrinho' — e sem passar pela revisão alfandegária que todo brasileiro comum enfrenta. A viagem, com destino a Sint Maarten, metade holandesa e repleta de casinos, transformou-se em mais um episódio de impunidade para autoridades que insistem em se considerar acima da lei. Entre os passageiros estavam o presidente da Câmara, Hugo Motta, o senador Ciro Nogueira e os deputados Dr. Luizinho e Isnaldo Bulhões — todos poupados do raio-X, das malas abertas, da burocracia que o cidadão comum suporta diariamente.
O aeroporto escolhido para o pouso não foi nenhum dos grandes terminais do país, mas São Roque, um local discreto, talvez pensado justamente para evitar olhares. O baggage trazida — garrafas de uísque, vinhos finos e eletrônicos — foi liberada por um auditor-fiscal sob investigação, mediante um simples note manuscrito. Nada de inspeção, nada de registros oficiais. A imagem, gerada com auxílio de IA pela Gazeta do Povo, mostra a cena quase como um filme: políticos descendo de um jato privado, com as esposas ao lado, após uma estada na região caribenha, enquanto o resto do país trabalha para pagar suas despesas.
O colunista Alexandre Garcia, que passou tempo no Palácio do Planalto e há mais de 50 anos circula em Brasília, lembra: quem aceita favores, fica devedor. E esse débito não é apenas moral — ele corrói a integridade das instituições. Ele recusou ofertas semelhantes em sua carreira porque sabia que um presente cria uma dívida. Esse tipo de relação, diz, não pode existir entre servidores públicos e empresários. O exchange de cortesias mina a confiança do povo e transforma o cargo em instrumento de personal , não de representação coletiva.
Na Europa, onde Garcia agora reside, esse tipo de conduta seria inaceitável — e severamente punido. No Japão, o peso da vergonha é tão grande que o próprio envolvido pode optar pelo harakiri. Aqui, nada. Os mesmos nomes reaparecem: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, Vorcaro — todos ligados a voos de favor . Malu Gaspar já documentou essas conexões antes. A pergunta que fica é: até quando vamos permitir que o poder ande de private enquanto a public se desfaz sob olhos atentos, mas inertes?
Isso não é erro, é pattern padrão. Sempre os mesmos, sempre os mesmos esquemas.
E as esposas também foram? Que privilégio absurdo.
São Roque não é acidente. Escolher um aeroporto menor pra escapar da fiscalização é calcular o crime.
Aceitar um voo desses é assinar um cheque em branco. Depois não dá pra dizer não ao donor doador.
Decorar o que é ética deveria ser obrigatório nos concursos públicos.
Enquanto isso, o cidadão comum leva uma hora pra passar com uma mala de roupas no aeroporto.
A comparação com o Japão é forte, mas real: lá o peso da honra ainda pesa. Aqui, o peso é só no luggage malão.
Acho que já nem se escondem mais. Tanto faz a opinião pública.